O lugar perfeito, na pele perfeita. Para minha segunda feira preguiçosa, escolho o abrigo do cobertor vermelho mal passado, as luzes fracamente afrodisíacas de um diretor hollywoodiano qualquer, até uma turbulência de ultimas letras do alfabeto camuflar minha preguiça em um sonho pacientemente perfeito. Para minha terça-feira de apresentação ao mundo exterior, sou uma válvula de pressão na panela da cozinha, observada pelos olhos famintos e alaranjados de um Golden Retriever esperando o rumo do minuto seguinte: fome ou fartura, guerra ou paz. Agora, na quarta-feira cinzenta, de quem não saiu com um semblante de vitória da terça-feira, um leve sorriso falso pra despistar as opiniões de alto calão; sou uma bolinha branca de ping-pong viajando sob a áurea azul da mesa [274x152,5 cm] do salão, curtindo a leveza do ar ao redor até atingir o indesejável mais obrigatório som seco, anunciando mais uma pancada da nada gentil raquete, na mão direita de algum presidente eleito por votos digitais… Mas espero, depois da escuridão, a luz; e uma nova viagem prazerosa de volta, passando pela rede divisora dos lados A e B de um vinil jamaicano com poucos riscos (de quem deixou os filhos curtirem o barato sem se preocupar, como deve ser)… e chega quinta-feira, agora, já natural… Sou a lâmpada apagada da pista escura da boate, até a hora em que o DJ (em sombras seguidoras de aulas “Toaster”) chegar. Literalmente. É que, pra depois deste descanso, nem eu sei mais quem eu sou… Descontrole, ora aceso, ora apagado, sendo guiado por uma força aleatoriamente externa, nas batidas de um groove bem feito, sem saber aonde que vou iluminar e, muito menos, aonde vou apagar… E na sexta-feira, ainda dormente, uma lição pra recordar… ou, pelo menos, lembrar. O que foi, de segunda a quinta, foi para melhorar o tom do fim de semana, pra gerar mais sorrisos momentâneos, uma pulsação ativa no peito, de quem quer curtir a vida. E neste sentimento de positividade, na sexta-feira, eu desafio as físicas de Newton. Sou um pernilongo desempregado, vagando livre, cabeça randômica, atrás de alguma aventura pelos portais da vida. Pouso na lateral do papel higiênico da suíte, perfumado, esperando a hora de alguém puxar pela ponta, fazendo o meu mundo girar, girar, sem precipitação de fuga, (a=v²/r) uma sensação inexplicável, digna dos sonhos de qualquer legista de um parque de diversões… Sou a pura aventura… sou a sexta-feira, pra quando o sábado chegar, me levar para onde quer que seja… Trilhas certas, caminhos que não dão em lugar nenhum (como aqueles viadutos inacabados da Fernão Dias), pra não se preocupar com nada…. Nem com os ponteiros do relógio girando, girando como minha cabeça, ainda entorpecida pela sexta-feira… Sou um bêbado ainda careta, procurando alguém pra dividir a conta do bar… Sem trocos, pra facilitar. Sou um navegador daqueles da história do descobrimento do Brasil, procurando ilhas para governar. Ilhas para dar bom dia, ilhas para sentir saudade, ilhas para dividir
sorrisos, ilhas para morar, e me sentir em casa. Depois de algumas aventuras por aí, no domingo, vou ser uma pessoa normal, em casa, comendo strogonoff de frango com coca-cola, pra depois, pensando no aluguel, lavar as louças… Todas, quase que sem preguiça porque, eu sei, amanhã serei a pura preguiça… Me escondendo de baixo de algum cobertor vermelho, pra começar tudo de novo…numa segunda feira de inverno, sempre com um sonho por perto…
